Pela décima vez desde 2003, o presidente Lula abriu o Debate Geral da Assembleia Geral das Nações Unidas. Foi também, segundo ele mesmo, o discurso mais duro que já fez na tribuna: “o momento mais crítico das Nações Unidas” desde a primeira vez que ocupou aquele palco.

Indignação com um mundo em guerra

Lula não poupou a própria ONU da crítica. Para ele, a organização está falhando em sua missão mais elevada, a de livrar a humanidade da guerra, e sua capacidade de proteger os mais vulneráveis nunca foi tão pequena. Apontou o dedo para o Conselho de Segurança e o poder de veto das grandes potências, um “vício de origem” que o Brasil já denunciava desde a primeira sessão da Assembleia, em 1946.

A frase que resume esse diagnóstico:

“A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política.”

Ele cobrou soluções concretas para os dois maiores conflitos do momento. Sobre Gaza, condenou o que chamou de genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças, defendeu a relatora da ONU Francesca Albanese e reafirmou a solução de dois Estados como o único caminho possível. Sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, foi direto: “todos sabemos que não haverá vencedores no campo de batalha. A diplomacia é a única opção.”

Soberania para a América Latina

Um dos trechos mais fortes do discurso foi a defesa da autonomia latino-americana diante da maior potência militar do mundo:

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”

Lula criticou a ingerência externa em processos eleitorais da região e defendeu o direito dos povos da Venezuela, da Nicarágua, do Haiti e de Cuba de resolverem seus próprios destinos, sem tutela estrangeira. No mesmo bloco, tratou do crime organizado como um problema que o Brasil enfrenta com as próprias mãos: recordou a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, a maior operação contra o crime organizado da história do país em 2025, e a nova Lei Antifacção, com penas superiores às do terrorismo. “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime.”

Meio ambiente e soberania sobre os recursos naturais

Lula reafirmou o compromisso brasileiro com a agenda ambiental em um momento em que, segundo ele, o tema desapareceu dos debates do G7 e do G20. Citou a queda pela metade do desmatamento na Amazônia, o menor nível em 11 anos, e reforçou o legado da COP30 em Belém com o Fundo Florestas Tropicais para Sempre. A síntese ficou em uma frase:

“A floresta vale mais em pé do que destruída.”

Ele também deixou claro que os minerais críticos e as terras raras do Brasil serão explorados em benefício do povo brasileiro, com geração de valor em território nacional e transferência de tecnologia como contrapartida obrigatória a qualquer parceria internacional.

Big Techs, desigualdade e o Brasil que queremos

Lula chamou a regulamentação das big techs e da inteligência artificial de desafio impostergável, criticando o que classificou de “neoliberalismo digital” sem regras. Defendeu as leis brasileiras de proteção a crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital e rejeitou qualquer tentativa de privatizar o Pix.

Sobre desigualdade, deixou um lembrete direto de que pobreza e subdesenvolvimento são escolha política, não destino: “é possível colocar o pobre no orçamento e fazer os ricos pagarem a sua parte.” E fez questão de diferenciar mudança de retrocesso:

“Mudar não é retroceder. Não é subtrair direitos.”

O recado final: a democracia brasileira

Lula fechou o discurso falando diretamente ao mundo sobre a eleição de 4 de outubro. Disse que os brasileiros não vão às urnas apenas para eleger presidente, governadores e parlamentares, mas para decidir entre democracia e negacionismo. Reconheceu o desafio das redes de desinformação na campanha, mas reafirmou a solidez do sistema eleitoral brasileiro sob o olhar de uma imprensa livre e de uma cidadania plural.

A frase final resumiu o tom de todo o discurso:

“A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho.”