“Onde tudo começou”: 47 anos depois, Lula volta a Vila Euclides para dizer que a luta continua
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Não foi só o lançamento de mais uma campanha. Foi um reencontro. Neste domingo, 16 de agosto, o presidente Lula subiu ao palco em Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, o mesmo estádio onde, em 1979, um metalúrgico de 33 anos subiu em cima de uma mesa de bar emprestada para falar a milhares de trabalhadores em greve, sem microfone, sem palanque, sem megafone. Quarenta e sete anos depois, no mesmo lugar, o presidente eleito três vezes abriu oficialmente a campanha para um quarto mandato.

A festa antes do discurso
O evento começou em clima de celebração. No telão, depoimentos de companheiros que estiveram ao lado de Lula desde o início relembraram os dias da greve, da repressão, do nascimento do PT, “o Brasil começou a mudar aqui”, resumiu um deles. Depois, o palco se encheu de gente que caminha ao lado do presidente nesta nova etapa: a primeira-dama Janja, o candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad ao lado de Ana Estela, o vice-presidente Geraldo Alckmin e Dona Lu Alckmin, e a candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro, Benedita da Silva, que emocionou o público ao lembrar que foi ali, com Lula, que se abriu caminho “para a nossa juventude, para negros e negras, para homens e mulheres”. Fafá de Belém, voz histórica das Diretas Já, subiu ao palco para cantar o hino nacional ao lado da multidão antes da chegada do presidente.
A emoção mais forte em 47 anos
Antes de qualquer proposta de governo, Lula quis falar do sentimento do próprio corpo naquele palco. Corintiano assumido, ele brincou que nunca morreria “de infarto causado pela emoção”, mas fez questão de dizer que aquele domingo era diferente de tudo:
“A emoção de hoje é uma emoção ímpar. É uma emoção que eu estou sentindo muito mais forte do que a que eu senti em 1979, aqui mesmo nesse estádio, quando a gente não tinha um palanque bonito como esse.”
O chapéu, e o carinho do povo
Quando Lula finalmente tomou a palavra, fez questão de explicar um detalhe que não passou despercebido: o chapéu que usava na cabeça. “Hoje eu fiz radioterapia na cabeça para cuidar de um câncer de pele, e eu não posso tomar sol na cabeça”, contou, antes de completar, em tom de brincadeira e afeto: “eu vou ousar a minha saúde e vou tirar o chapéu para todos vocês.” O gesto resumiu bem o tom da tarde: um discurso que misturou emoção pessoal, memória histórica e projeto de país.
A dívida com quem não está mais aqui
Antes de falar de política, Lula quis lembrar quem ajudou a construir essa trajetória e já não está entre nós, os intelectuais Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda e Antônio Cândido, o amigo Marco Aurélio Garcia, o seringueiro Chico Mendes e os sindicalistas rurais Margarida Alves e Ilso Pinheiro de Souza, ambos assassinados por defenderem trabalhadores do campo.
O momento mais silencioso da tarde, porém, foi reservado à própria mãe. Dona Lindu morreu em 1980, enquanto Lula estava preso por causa da greve de 41 dias. Ele contou que, no regime militar, o delegado da Polícia Federal permitiu que saísse da cadeia para ir ao enterro dela, e fez questão de marcar o contraste com um episódio recente, já na democracia: “agora, no regime democrático, um juiz, um ministro que eu indiquei, não permitiu que eu saísse da cadeia para vir no enterro do meu irmão Vavá.” Para Lula, o episódio prova que “os homens não são medidos por épocas, são medidos pelo caráter.”
Foi em nome de Dona Lindu, “uma mulher que nasceu e morreu analfabeta”, que criou sozinha oito filhos depois de ser abandonada ao chegar em Santos, que Lula fez um dos apelos mais fortes do discurso: “mulheres deste país, não baixem a cabeça nunca, porque nós precisamos aprender a respeitar vocês como companheiras, não como serviçais.”
A lição que Vila Euclides ensinou
Foi ali mesmo, naquele gramado, que Lula disse ter aprendido “a mais importante lição de sociologia política” da sua vida. Ele relembrou o momento, durante a greve de 1979, em que trouxe aos trabalhadores uma proposta de acordo que considerava boa, mas, temendo perder uma votação direta, preferiu arriscar um voto de confiança:
“Eu não posso perder, porque um líder não pode perder uma votação. Ele tem que ter capacidade de persuasão.”
Ganhou por unanimidade, e mesmo assim saiu dali visto como traidor por boa parte da categoria, que achava que ele deveria ter radicalizado a greve em vez de negociar. Levou um ano inteiro reconstruindo essa confiança, degrau por degrau, até a greve de 41 dias em 1980, quando foi preso e a categoria perdeu praticamente tudo o que reivindicava. Foi só ali, segundo ele, que os próprios trabalhadores entenderam o valor daquela decisão de negociar em 1979, em vez de radicalizar: “os trabalhadores descobriram que eu estava certo em 1979, e que eles estavam errados.”


A resposta a quem questiona um quarto mandato
Lula não fugiu da pergunta que sabe que existe por aí. Antes de falar de propostas, respondeu diretamente a quem questiona por que buscar mais quatro anos:
“Enquanto eu for vivo, não vou permitir parar de lutar e deixar a direita voltar ao poder, a mesma direita que dava risada das crianças morrendo por falta de remédio, a mesma direita responsável pela morte de mais de 400 mil pessoas na Covid por não comprar vacina. Que futuro essas pessoas pensam para o povo brasileiro, se não se investe em educação? Se não se investe em saúde? Se não se investe em casa? Se não se investe em emprego?”
O que ainda está por vir
Lula também usou o palco para adiantar o que pretende priorizar num quarto mandato. Falou da disputa global por terras raras e minerais críticos, hoje no centro da briga entre China e Estados Unidos, e defendeu que o Brasil não escolha lado nenhum de fora, mas desenvolva sua própria capacidade de explorar e industrializar esses minerais:
“Nós queremos extrair aqui, transformar aqui, industrializar aqui, produzir aqui, gerar emprego aqui e gerar riqueza. Ninguém vai explorar os nossos minerais críticos. Nós é que vamos explorar, em benefício do povo brasileiro.”
Na área da segurança, condicionou a criação de um novo Ministério da Segurança Pública à aprovação da PEC da segurança, hoje em tramitação no Congresso, uma pasta pensada, segundo ele, para dividir responsabilidade com estados e municípios e “libertar o povo das vilas mais pobres” do domínio de quadrilhas. E prometeu ampliar a escola de tempo integral, não apenas como política educacional, mas como política de apoio às famílias: “pra gente facilitar não apenas a vida do estudante, mas a vida da mãe e a vida do pai que pode trabalhar sabendo que o seu filho está estudando.”
O retrato em números
Lula também reservou tempo para contrastar números do seu governo com os do governo anterior: mais de 10 milhões de empregos formais criados nos últimos anos, contra 6 milhões no mandato anterior; inflação de 4,5% contra 6,2%; desemprego em 5,4% contra 8%; crescimento econômico de 3% contra 1,4%. Ele citou também a ampliação do número de brasileiros com diploma universitário no mercado de trabalho, de 5 milhões em 2003 para 25 milhões hoje, e anunciou que, em 10 a 15 dias, apresentará ao lado de Alckmin a proposta de governo para o próximo mandato, com planos que incluem a criação do Ministério da Segurança Pública, caso a PEC da segurança pública seja aprovada, e a ampliação da escola de tempo integral. Ao fechar a comparação de números, deixou um recado direto ao governo anterior:
“Criem vergonha na cara, parem de mentir, porque o povo brasileiro não vai aceitar que a mentira vença a verdade.”
Até a vitória, no dia 4 de outubro
Perto do fim, Lula deixou claro que a disputa não se resume à sua própria reeleição. Pediu voto para Haddad ao governo de São Paulo, para Marina Silva e Simone Tebet ao Senado, e para os candidatos e candidatas a deputado federal do seu campo, “porque a gente precisa ganhar as eleições, eleger maioria no Congresso Nacional para que a gente possa fazer tudo o que a gente tem que fazer nesse país.” Encerrou com um convite direto, quase pessoal, a cada pessoa que estava ali: “um abraço no coração, um abraço. Que Deus abençoe cada um de vocês. E até a vitória no dia 4 de outubro, se Deus quiser.”
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